domingo, 7 de setembro de 2008

SEM VONTADE DE ESCREVER (ao som de Refrão de um bolero – Engenheiros)


DE QUANDO VI AS ESTRELAS PELA PRIMEIRA VEZ

Almoços de domingo, na qual reúne a família e os amigos, são ótimos para recordações do passado. E a que mais me incomoda (não sei por que) é a historia de quando vi as estrelas pela primeira vez, e quando digo estrelas são estrelas mesmo, corpos celestes luminosos formados de plasma.
Eu devia ter uns quatro ou cinco anos, minha mãe só percebeu que eu era praticamente cega porque minha professora do “prézinho”, senhora Nilma (até o nome dela é de megera) quebrou meu dedo com uma régua de madeira após eu dizer a ela que não tinha feito exercício passado na aula porque eu não vi o que estava escrito no quadro, e como sempre fui grande só sentava na ultima cadeira. Eu realmente não vi o que estava no quadro, ela entendeu como sarcasmo e por isso chamou minha mãe na escola pra conversar sobre mim. As palavras dela foram as seguintes: “ou sua filha é muito sínica ou é muito cega”.
E fui eu, de mão enfaixada, fazer o exame de vista. Conheci o doutor Edson Favarato, oftalmologista que me acompanha desde então, ele diagnosticou miopia progressiva.
Depois de escolher a armação e de alguns dias pro óculos ficar pronto, lá estava eu vendo o mundo com outros olhos, na verdade os olhos eram os mesmos só que agora era diferente, tudo era mais claro, tinha mais cor.
E nessa redescoberta do mundo nem me dei conta de que estava anoitecendo. Aproximadamente às sete horas da noite minha mãe me grita da rua para exibir sua filha de óculos como um troféu, eu saio do quarto, passo pela sala, copa, cozinha e quando ponho os pés do lado de fora da casa, o céu me chama atenção, eram as estrelas. Como purpurina derramada sobre cetim preto, fiquei admirando o céu, parada ali, extasiada.
Nunca pensei que sobre minha cabeça pudesse haver um céu tão estrelado daquela forma, e com isso mãe foi até em casa pra ver o porquê de tanta demora pra percorrer um percurso de uns 20 segundos e se deparou comigo olhando pro céu.
Desde então ela conta essa historia todos os domingos, festas de aniversario ou qualquer outra reunião de família. Gostaria de saber como ela conseguiu transformar esse momento mágico e único na minha vida em algo tão constrangedor.

Uma coisa eu sei, todas as noites eu tento olhar pro céu como se fosse à primeira vez, pra eu nunca perder o encanto pelas pequenas coisas, coisas que alguns chamam de cotidiano, mas talvez hoje a noite seja a ultima vez que você olha para o céu.

2 comentários:

Albino Silva disse...

Pelo mesmo motivo de miopia. foi surpreendente pra mim descobrir o céu noturno. Acho que para os outros isso e bonito de pesar, mas só quem passa por certas experiências (n as traumáticas) consegue saber o primor e a força que coisas assim representam.

Sempre que estver com preguiça deescrever; pense que pode teralguém que quer saber de vc e quem sabe a única maneira de ter contato seja este... É extremo, mas esse tipo de linguagem geralmente funciona. hehe.

Nosso passado está repleto de coisas a serem contadas, mesmo que apenas para nos purgar de suas lembranças ou nos livrar de sofrer sozinhos, mas pq não divertir o mundo com a primeira vez que fizemos xixi na cama tbm? Fica bem. Se cuida. Escreva sempre, pois mesmo calada espero te ler.

Flávio André Silva disse...

Que tal ressucitar as borboletas?